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Tempo duma Vida - Gilberto Grácio


Capa do Livro: Tempo duma vida - Gilberto Marques Grácio (pp. 115 - 116). 1a Ed. Município de Oeiras.
Capa do Livro: Tempo duma vida - Gilberto Marques Grácio (pp. 115 - 116). 1a Ed. Município de Oeiras.

Em 2020 recebi um telefonema da Drª. Isabel Macedo, do Departamento de Artes, Cultura, Turismo e Património Histórico, do Município de Oeiras, dizendo-se portadora de um desafio que, desde logo, me deixou muito feliz de ser convidado a participar. A Drª. Isabel Gonçalves Macedo teve a coragem de encarar a missão de reunir em livro o “Tempo duma Vida” muito especial: a vida do mestre Gilberto Marques Grácio, guitarreiro inigualável na construção de uma série de instrumentos musicais de onde destaco: a guitarra de Coimbra.

O mestre Gilberto Grácio é uma figura incontornável da cultura portuguesa, tendo prosseguido um percurso de três gerações (do seu pai, João Pedro Grácio Junior, e do seu avô, João Pedro Grácio), na acumulação de conhecimento e busca pela perfeição na sua arte.

Tive o privilégio de o conhecer, ser seu amigo e de terem nascido das suas mãos as guitarras que, há vinte anos, se animam nas minhas.

Tenho a honra de fazer parte um grupo de pessoas que o mestre escolheu para escreverem um pequeno texto neste livro.

 

"As 12 badaladas que se ouviram, no largo da Sé Velha, em Coimbra, na noite de 6 de Maio de 2005, anunciaram a hora de se traçarem as capas e se abrirem os corações para que o som das guitarras encontrasse o seu eco perfeito. Muito mais que os acordes rasgados voando e dando asas às vozes de quem lhes deu voz, e que as melodias plenas do significado para sempre gravado nas pedras da Sé, nas cordas daquelas guitarras vibraram os sonhos de quem as tocou e verdadeiramente escutou. Nessa mágica noite de Serenata Monumental, também ali se ouviu a minha guitarra...

De Trás-os-Montes a Coimbra vai uma curta distância de estrada e uma longa viagem de esperança que, em 2001, percorri para que o meu ingresso na Faculdade de Farmácia pudesse ser precedido de uma inscrição nas aulas de guitarra da Secção de Fado da AAC. Trazia comigo a guitarra de um grande amigo e antigo estudante de Coimbra e com ela, as histórias, os desejos, sonhos e saudades de outros tempos que agora se ansiavam renovar. No dia em que entrei pela primeira vez na sala Dr. Jorge Gomes, aquela que viria a ser a minha segunda casa, ouvi pela primeira vez um nome que fez toda a diferença na história que se seguiu: “Tens uma guitarra? Não digas que é uma Grácio!”.


Mestre Gilberto Grácio - Parque de Ateliers da Quinta do Salles - Junho de 2018 - Foto de Henrique Fraga
Mestre Gilberto Grácio - Parque de Ateliers da Quinta do Salles - Junho de 2018 - Foto de Henrique Fraga

Não demorou muito a entender que aquela pergunta era na realidade uma praxe, com todo o caráter de brincadeira instrutiva, tipicamente coimbrão.

Aprendi então que “uma Grácio” era bem mais que uma marca de guitarra. Era um mito, uma utopia para os aprendizes. Um instrumento talhado à mão da forma mais minuciosa que se poderia imaginar, personalizado para o guitarrista a quem se destinava.

Eram guitarras absolutamente incríveis, com um timbre reconhecível de olhos fechados, lembrando as gravações do Artur e do Carlos Paredes. Faziam os melhores guitarristas!





De facto, só a brincar se poderia supor que a minha guitarra na altura fosse a dos sonhos de qualquer um, “uma Grácio”. Tornou-se uma quimera à medida que cresceu a minha paixão pela guitarra de Coimbra e, cresceu de tal forma, que um dia chegou aos ouvidos e ao coração do mestre Gilberto Grácio. Em 2004, tive a honra de ouvi-lo dizer: “Tenho aqui uma guitarra para si...”! Conheci o mestre pela sua amabilidade em dispor--se sempre a qualquer ajuste para tornar a guitarra ao meu jeito. O respeito pelo conhecimento e experiência acumulados de várias gerações dedicadas àquela arte, a admiração pelo talento entregue a cada ínfimo pormenor e a gratidão por toda a atenção e cuidado oferecidos, transformando a minha busca pessoal em tão singular e especial partilha, abriram decisivamente as portas para o caminho em que ainda hoje me encontro. O mesmo em que algures, uma noite, me sentei nas escadas da Sé para tocar a minha guitarra, a minha Grácio. Acredito que é desta forma que sentimentos como a amizade e a estima adquirem uma profundidade inexprimível. Que a nobreza da arte se refina e que o fruto da mesma alcança todo o esplendor. Acredito que, do simples pedaço de madeira à guitarra, existe uma dimensão humana infinita que se pode ouvir e jamais se extingue enquanto houver mãos para a tocar."


Henrique Fraga

Em Tempo duma vida - Gilberto Marques Grácio (pp. 115 - 116). 1a Ed. Município de Oeiras.


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